9 de março de 2015

Achado perdido

A mente solta, abruptamente, as rédeas do pensamento e voam alto, juntos. Tão alto que sobe à espinha o calafrio do desnorteio, do descontrole. Não posso perder de vista a mim mesma. Apago a luz, talvez assim me concentre em me trazer de volta. O quarto é tão pequeno, como posso estar tão longe? Toco minha pele. Talvez assim lembre a mim meu limite físico. De nada vale. Como uma pipa a perder-se de vista no céu, localizo minha mente a uma distância inesgotável, perdida e leve. Penso na queda livre, em sua velocidade e lucidez. Algo que me trouxesse à terra firme, talvez assim caísse em mim. Ou me deixo levar por novos ares, por asas fortes, por resignificados. Talvez assim me extrapolasse. 

19 de novembro de 2013

Pierrot


Quando chegar o carnaval, pretendo ver o céu que não vejo daqui. Pretendo deixar o vento fazer passar o dia, varrer a vergonha. Deixar a noite fazer hora enquanto jogo o ano fora. Fazer-me despreocupada, desinibida, dissimulada. Ser tudo que não fui até então. Conversar com passarinhos, deitar na grama e observar formigas. Coisas de criança, de autoaceitação. Quando chegar o carnaval, vou viver de fotossíntese e fotografia. Comer a luz do dia e à noite revelar solidão. Deixar chegar a quarta-feira de cinzas e arrancar meu peito fora. Voltar a ser quem fui até então.

20 de setembro de 2013

Fazia frio


Era noite. Atravessei a rua a passos largos, mas não tão firmes, pois estava de salto alto. Você sabe, não tenho costume. O vento gelado cortava minha pele e a cada minuto contava dois. Fazia frio, mas eu não o sentia. Vesti a blusa pra me proteger de olhares. A passos largos te buscava em pensamento e a gente conversava por telepatia, onde mudávamos o mundo e depois esquecíamos.

a Thiago, pelo aniversário.

30 de abril de 2013

Sensível

Sensível
Como a página do livro velho
Como a sola do pé novo

Sensível
A tudo e a todos
Ao berro e ao beijo
Ao calo e ao colo

Sensível
Como a língua atenta
Ao fino fio de cabelo
A incomodar na boca