19 de novembro de 2013

Pierrot


Quando chegar o carnaval, pretendo ver o céu que não vejo daqui. Pretendo deixar o vento fazer passar o dia, varrer a vergonha. Deixar a noite fazer hora enquanto jogo o ano fora. Fazer-me despreocupada, desinibida, dissimulada. Ser tudo que não fui até então. Conversar com passarinhos, deitar na grama e observar formigas. Coisas de criança, de autoaceitação. Quando chegar o carnaval, vou viver de fotossíntese e fotografia. Comer a luz do dia e à noite revelar solidão. Deixar chegar a quarta-feira de cinzas e arrancar meu peito fora. Voltar a ser quem fui até então.

20 de setembro de 2013

Fazia frio


Era noite. Atravessei a rua a passos largos, mas não tão firmes, pois estava de salto alto. Você sabe, não tenho costume. O vento gelado cortava minha pele e a cada minuto contava dois. Fazia frio, mas eu não o sentia. Vesti a blusa pra me proteger de olhares. A passos largos te buscava em pensamento e a gente conversava por telepatia, onde mudávamos o mundo e depois esquecíamos.

a Thiago, pelo aniversário.

30 de abril de 2013

Sensível

Sensível
Como a página do livro velho
Como a sola do pé novo

Sensível
A tudo e a todos
Ao berro e ao beijo
Ao calo e ao colo

Sensível
Como a língua atenta
Ao fino fio de cabelo
A incomodar na boca

23 de abril de 2013

Metade

Quando eu digo que combina é quando eu mostro o que difere. Na soma, ficamos só metade. Metade das horas juntos: metade do meu dia e metade da sua noite. Metade de você em mim e vice-versa. A outra metade é individualidade e saudade. É a dualidade entre mim e nós. É meu encontro com a sua ausência física e presença imaginária. Isso tudo por causa daquela velha conversa: você é da noite e eu sou do dia. Mas quando eu digo que combina, a questão é simples: seu coração é lunar e o meu lunático.

19 de março de 2013

Há de Ser

Se você não quer morrer, há de envelhecer
E não será fácil, mas será rápido
Porque há de ser bom

Como tudo que é bom
Há de ser doído, por ser verdadeiro
Por ser comigo

5 de março de 2013

Alguém cantando

Não me canso de mudar. Na verdade, me canso, mas se não paro, deve ser porque não me canso. Ou me canso, de fato, porque isso me esgota. Mas isso me ajuda, me ajuda a evoluir, me acrescenta e não me deixa cansar porque logo já mudei. Mas mudo de ideia e me canso de mim, de ser, de crer. Canso-me de acreditar em mim, na minha evolução e nas minhas influências. Chega de influências! Chega de novidade, chega de arte! A minha cabeça não aguenta tanta mudança, tanta verdade! Mas aí eu sinto fome, tenho sede e preciso respirar... Daí ouço Caetano e tudo muda.