Quando chegar o carnaval, pretendo ver o céu que não vejo daqui. Pretendo deixar o vento fazer passar o dia, varrer a vergonha. Deixar a noite fazer hora enquanto jogo o ano fora. Fazer-me despreocupada, desinibida, dissimulada. Ser tudo que não fui até então. Conversar com passarinhos, deitar na grama e observar formigas. Coisas de criança, de autoaceitação. Quando chegar o carnaval, vou viver de fotossíntese e fotografia. Comer a luz do dia e à noite revelar solidão. Deixar chegar a quarta-feira de cinzas e arrancar meu peito fora. Voltar a ser quem fui até então.